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VOCÊ - NÓS - EU
José Gervásio Artigas, foi o chefe do primeiro governo nacional uruguaio. Lutou contra as tropas luso-brasileiras que chegaram a ocupar Montevidéu. Teve um sem número de batalhas contra argentinos, paraguaios e brasileiros, conseguindo ao final, manter milagrosamente a independência da pequena nação uruguaia, a hoje chamada Suíça Sul Americana. Possivelmente, somente um nome poderia ser comparado ao dele na História latino-americana, o de Bolivar. Foi, ao que dizem os cronistas da época, um homem excepcional pelo caráter, pela coragem, pela sabedoria como condutor de povos, de idoneidade e amor aos seus comandados.
Hoje, na principal praça de Montevidéu, a da Independência, repousam seus restos mortais em urna funerária. A câmara ardente permanente é velada por guardas armados tão rígidos em sua posição de sentido que nos dá, na obscuridade do enorme salão de mármore negro subterrâneo, a impressão de estatuas. Tive de chegar bem próximo de um deles, para ver se por acaso não estava dormindo em pé, tal sua rigidez. ''Certamente, um soldado de Artigas em sentinela'', pensei. Aliás, ponto de reverente visita obrigatória sempre que vou lá.
Mas, o que tem Artigas comigo, consigo e conosco ?
Vou contar.
Artigas encontrava-se exilado no Paraguai e, por determinação do então Ditador dali, fora instalado em um mosteiro onde, entre padres caridosos, vinha cumprindo sua sina. Aos poucos sua revolta foi crescendo apesar da gratidão a aqueles piedosos religiosos. Suas reclamações crescem e ele, ao final, manifesta desabrida carta ao Ditador Francia:- ''Un soldado vivendo entre failes ! ".
O Prior o chama em confissão e tenta aconselhá-lo, temeroso de que o líder viesse a criar embaraços a ordem institucional do país que o abrigava. Artigas atende e senta-se a dialogar com o caridoso religioso, até que em um determinado instante assume uma postura voluntariosa e franca:-
--''Padre. Supongamos que usted es Artigas y yo el Prior. Usted es soldado y yo sacerdote. Se hallaría usted en estas celdas ?''
Pensativo, olhando no fundo dos olhos azuis cinzentos de Artigas, buscando tudo que ia na alma daquele homem e imaginando os estranhos e misteriosos designos de Deus em Sua sabedoria, o Prior respondeu:-
--''No. Usted es Artigas. Es un soldado. No es ca su sitio.''
Indago-me:- Quantos de nós nos colocamos nesta situação. Trocamos de lugar com nosso próximo. Quantas vezes fazemos como Artigas:- ''Eu sou o padre e você o soldado. Como agiria ?''
Como seria eu se a miséria abatesse as minhas portas; se o dinheiro fácil chegasse-me às mãos; se o desespero encostasse as minhas portas; se a injustiça toldasse-me a lucidez; se a maldade, a crueldade social ateasse fogo ao meu ânimo; se a moléstia caísse sobre mim; se a oportunidade roubasse-me o denodo.....
Nós, você e eu poderíamos responder com a segurança do diálogo entre Artigas e o Prior ?
Teríamos esta franqueza para conosco mesmo ?
Seriamos capazes de trocar de posição com o próximo e de lá, do lugar onde ele está, julgar-mo-nos a nós mesmos e a ele também ? Juiz de si e do próximo com a lucidez que falta a maioria dos Magistrados togados.
É difícil, muito difícil conseguir inverter a posição em nossa alma e sentir o que o outro pode estar sentindo e, talvez, mais difícil ainda, crendo em Deus, imaginar que ao final somos todos você, nós, eu.
DeMarKo
17/03/001